Opinião - Entre a ‘realidade’ do discurso de Boas Festas de Montenegro…e a realidade do país
- Redacção - Notícias de Arronches

- 27 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Entre o Natal e o Ano Novo, Portugal abranda. As fábricas reduzem turnos, os serviços públicos funcionam em regime mínimo, decisões ficam suspensas. Nada disto é novidade, nem constitui um desvio inesperado no desempenho da economia. Trata-se de uma pausa cíclica, curta e amplamente integrada nas contas nacionais. Ainda assim, é neste intervalo simbólico que o discurso político insiste em convocar o país para “produzir mais”, como se uma semana de menor actividade explicasse fragilidades económicas antigas.

Na mensagem de Boas Festas, o primeiro-ministro voltou a sublinhar uma ideia recorrente: só com mais produção será possível pagar melhores salários e garantir uma distribuição mais justa da riqueza através dos impostos. O princípio é correcto. O problema está na forma como esta equação é apresentada como se fosse, sobretudo, uma questão de vontade colectiva.
A economia portuguesa sofre duma produtividade estruturalmente baixa, empresas descapitalizadas, reduzida dimensão média, fraco investimento em inovação e um mercado de trabalho que continua a empurrar jovens qualificados para fora do país. Nenhum destes problemas se resolve com um apelo genérico à produção, muito menos num período que simboliza, precisamente, o descanso.
A insistência neste tipo de mensagem revela uma forma discreta de negação: não dos números, mas das causas. Ao colocar a tónica no esforço produtivo, transfere-se implicitamente a responsabilidade para trabalhadores e empresas, diluindo o papel do Estado nas condições que moldam esse esforço. Em Portugal, produzir mais não depende apenas de trabalhar mais horas, depende de trabalhar com capital, tecnologia, previsibilidade fiscal e um enquadramento estável.
O país convive há anos com salários médios baixos, uma carga fiscal significativa sobre o trabalho, burocracia persistente e uma justiça económica lenta. Ao mesmo tempo, o investimento público continua a falhar prazos e execução, mesmo quando os recursos existem. Neste contexto, pedir “mais produção” sem enfrentar estes bloqueios soa menos a estratégia económica e mais a retórica política.
O cidadão comum escuta o apelo e responde com uma pergunta simples: produzir mais como? Com que incentivos? Com que perspectiva de retenção do rendimento gerado? Sem respostas claras, o discurso corre o risco de parecer deslocado da realidade de quem trabalha e de quem investe.
As mensagens de Boas Festas cumprem uma função simbólica e política. Mas quando substituem o diagnóstico pela encenação, tornam-se parte do problema. O que persiste, ano após ano, é a dificuldade em assumir que a ligação entre produção, salários e impostos exige reformas profundas — e não apenas frases certas no momento certo.
Fernando Neves Marques






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