A FAE: muito mais do que uma feira

Por: Fernando Neves Marques/Director
A realização da XV Feira das Actividades Económicas de Arronches voltou a demonstrar que este é um dos momentos mais importantes da vida colectiva do nosso concelho. Não apenas pelo ambiente de festa, pelo convívio ou pela programação cultural, mas sobretudo porque permite olhar de frente para a realidade económica e social de Arronches.
Somos um concelho com pouco mais de três mil habitantes, onde a agro-pecuária continua a ser o principal pilar da actividade económica. A indústria existe, mas tem uma dimensão reduzida, sendo poucas as empresas (Tiago Velez, Padaria Arguelles e Cardoso nos Mosteiros) com capacidade para criar um número significativo de postos de trabalho. O sector público continua a representar a maior fatia da empregabilidade, através do Município e dos diversos serviços do Estado, enquanto as Instituições Particulares de Solidariedade Social desempenham igualmente um papel determinante na criação de emprego e no apoio às populações.
O comércio tradicional, a restauração e os serviços mantêm viva a economia local. Na maioria dos casos, trata-se de negócios familiares, construídos com muito esforço, persistência e dedicação. Perante esta realidade, a pergunta impõe-se: o que mais é necessário fazer para contrariar os efeitos da interioridade?
Não existem soluções simples nem imediatas. A desertificação do interior resulta de décadas de concentração do investimento e das oportunidades nas grandes áreas urbanas. Muitos arronchenses partiram, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, em busca de melhores condições de vida na Área Metropolitana de Lisboa e no Vale do Tejo. Essa foi a realidade de uma geração inteira. Contudo, Arronches demonstra hoje que não desistiu do seu futuro.
A FAE é a prova disso mesmo. Cada expositor, cada produtor, cada empresário e cada associação presente representam pessoas que continuam a acreditar na sua terra. São exemplos de coragem, de empreendedorismo e de uma vontade firme de preservar as raízes, criando riqueza onde muitos apenas vêem dificuldades.
Também o Município tem procurado responder aos desafios actuais. A aposta na recuperação e construção de habitação, na disponibilização de novos loteamentos nas três freguesias e na criação de condições para acolher quem pretende trabalhar à distância, são sinais claros de uma estratégia orientada para a fixação de população e para a valorização da qualidade de vida que o concelho oferece.
Naturalmente, muito continuará por fazer. Será indispensável reforçar a captação de investimento, melhorar as acessibilidades, promover a inovação no sector agrícola, apoiar o empreendedorismo jovem e criar condições para que mais empresas escolham Arronches para investir. Mas esse caminho constrói-se com persistência, visão e trabalho conjunto.
Mais do que uma feira, a FAE é um espelho da identidade de Arronches. Mostra aquilo que somos e, acima de tudo, aquilo que queremos continuar a ser: um concelho que acredita nas suas pessoas, valoriza o seu tecido económico e recusa resignar-se às limitações impostas pela interioridade.
Porque o futuro do interior não se constrói apenas com discursos. Constrói-se com pessoas que ficam, com pessoas que regressam e com pessoas que escolhem Arronches para viver, trabalhar e investir.
Enquanto houver essa vontade colectiva, haverá sempre razões para acreditar que o melhor ainda está por fazer.
A gatunegem e o Capuchinco Vermelho
Por: Luís Mergulhão
Há uma teoria, designada Teoria do Caos, que apresenta uma ideia muito simples, mas que ajuda a ilustrar fielmente o que se passa no mundo real: é o designado “efeito borboleta” e que diz que pequenas variações iniciais podem causar efeitos catastróficos globais. Esta ideia pode resumir-se à metáfora de que uma borboleta pode bater as suas asas em Tóquio e essa variação pode fazer cair a Bolsa de Nova Iorque. Sublinho que, naturalmente, isto é apenas uma ilustração metafórica do fenómeno e que este texto não pretende ser um tratado sobre o que está a acontecer em Portugal no que diz respeito à come-rcialização dos combustíveis. É apenas a minha opinião pessoal e não mais do que isso, pois falta-me informação relevante para fundamentar inequivocamente o que se está a passar.
Ora, esse efeito está bem patente nos dias que correm, pois a incerteza que grassa no Médio Oriente está a deixar os mercados globais à beira de um ataque de nervos, bastando haver uma declaração mais ou menos incendiária ou mais ou menos tranquilizadora de algum dos líderes envolvidos no conflito para o preço do petróleo subir ou descer assustadoramente; daí que não se possa prever sem grande risco de errar como vão estar os Mercados na abertura do dia seguinte, uma vez que a melhor das previsões pode, em função dos acontecimentos, estar completamente errada. E, desta forma, o Mundo tem dificu-ldade em encontrar o ponto de equilíbrio na medida em que nunca se sabe como é que a “borboleta” vai acordar no dia seguinte.
Mas isto é no Mundo. Em Portugal é ligeiramente diferente, pois os portugueses já se vão habituando a uma circunstância anormalmente normal: a subida rápida dos combustíveis e a comedida descida se a matéria-prima desce nos mercados inte-rnacionais. Há muito que ando a defender que existe, no nosso país, um indecoroso cartel formado pelas empresas petrolíferas e, sem o poder provar (pois nem é esse o meu papel!), a empresa líder de mercado (a Galp) impõe os seus interesses, que não são de todo os interesses do povo português, sendo seguida pelos restantes players de mercado, que também beneficiam dos preços altos, formando, assim, um Cartel que nos prejudica a todos através da concertação de preços.
Um Cartel é, em termos gerais, quando as empresas do mesmo sector se unem para influenciar os preços (na realidade, é um conceito mais vasto, mas limitemo-nos a este aspecto simplista) ao consumidor, não deixando que o mecanismo de Mercado o faça livremente. Do meu ponto de vista, é isso que acontece há muito tempo em Portugal, para benefício dessas empresas e, em consequência, para prejuízo dos consu-midores, sejam famílias ou empresas; daí que seja uma prática que é penalizada por lei. Ou seja, é um crime económico.
Posto isto, devo dizer que, por circuns-tâncias pessoais de interesse no Mercado, há muito tempo que vou registando a evolução do preço do petróleo nos mercados internacionais, com especial interesse no mercado norte-americano, sendo que, para o caso de Portugal, o que interessa é o Brent, comercializado em Londres. Este é, por norma, ligeiramente mais caro do que o WTI de Nova Iorque, mas para este pequeno exercício podemos usar os dados que tenho compilados há muito para fazer a análise da evolução do preço dos combustíveis e a forma como os portugueses estão a ser roubados diariamente por empresas que não olham a meios para beneficiarem os seus accionistas com o beneplácito das entidades reguladoras e dos sucessivos governos. Já agora, outro aspecto que há que ter em conta é a evolução da relação €uro/dólar, e essa tem sido ligeiramente favorável ao €uro nos últimos meses, o que por si só deveria ajudar a aliviar os preços.
Concretizemos pois: a semana em que o preço da matéria-prima atingiu o seu pico foi entre 27/04 e 01/05, com o valor médio semanal a situar-se nos 102,69 dólares. Como consequência, no dia 04/05, segunda-feira, nos postos Galp (como líder de mercado, são os preços que vou utilizar neste exemplo), a gasolina evologic 95 passou a ser comercializada a 2,036€/litro, e o gasóleo evologic a 1,999€/litro.
Na semana entre 11/05 e 15/05, o preço médio do petróleo foi de 100,11 dólares, sendo que aquela gasolina e aquele gasóleo, a 18 de Maio, passaram para 2,076€/litro e 1,989€/litro, respectivamente. Algo já começa a não bater certo… Porém, o melhor está para vir: na semana de 29/06 a 03/07, o preço médio da matéria-prima foi de 69,19 dólares o barril. Este valor é relevante, pois apresenta uma descida de 32,62% comparativamente à semana em que se atingiu o pico do preço do petróleo. E o que se passou com a evolução do preço dos combustíveis no mesmo período? Bem, SUR-PRE-SA: a gasolina evologic 95 passou a ser comercializada na segunda-feira, dia 06/07, a 1,996€/litro e o gasóleo evologic a 1,959€/litro.
E onde está a surpresa? É que, com-parando com os preços dos combustíveis no dia 4 de Maio, aquela gasolina baixou 1,96% e aquele tipo de gasóleo baixou 2%. Simples, não é? Na descida, os preços que pagamos pelos combustíveis nunca acompanham o preço da descida da matéria-prima e a pergunta que se impõe é muito simples: porquê?
Há uma circunstância que nos pode ajudar a encontrar resposta àquela pergunta e que deixa antever uma política concertada de preços (Cartel) entre as diversas empresas do sector, que pode observar-se nas auto-estradas e na informação disponível antes de qualquer área de serviço: é comum apresentarem-se os preços comercializados por diferentes fornecedores com a particu-laridade desses preços serem iguais até à milésima! Para que isso acontecesse, seria necessário que todos os custos associados à produção tivessem de ser iguais, o que é virtualmente impossível; daí que a única explicação plausível, por mais que nos queiram ludibriar, reside em acordos entre as empresas. Não pode haver outra explicação, salvo a ocorrência de uma coincidência ina-creditável na qual eu não acredito.
Portanto, do meu ponto de vista, há uma gatunagem que está a prejudicar o povo e as empresas portuguesas, sem que ninguém faça nada para reverter uma situação perniciosa e inaceitável. Neste contexto, doeu-me a alma ouvir a Senhora Ministra do Ambiente desempenhar o papel do Capuchinho Vermelho, ao vir dizer, do alto da sua imensa Cátedra, mas de forma absolutamente ingénua e julgando que os portugueses são uns incautos que não questionam o que é óbvio, que a descida tão parcimoniosa dos preços dos combustíveis não se justifica e, por isso, decidiu pedir explicações aos Reguladores (ENSE e ERSE).
Como assim a Senhora Ministra não sabe? O papel desempenhado pelos sucessivos governos (o actual e os anteriores, pois é um fenómeno que se sente há já alguns lustros) tem sido de cumplicidade com as empresas petrolíferas e não é por acaso que muitos ex-governantes acabam nos Quadros dessas empresas. E nós sem dinheiro para a gasolina.







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