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A Páscoa

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Por: Fernando Neves Marques/Director

Abril chega sempre com um simbolismo especial. É o mês em que a primavera se afirma, os dias crescem e, no calendário, a Páscoa marca um dos momentos mais significativos  tanto no plano religioso como no cultural. Mas afinal, o que celebramos?
Para os católicos, a Páscoa é o ponto central da fé: a celebração da ressurreição de Cristo, símbolo de renovação, esperança e vida nova. É um tempo de recolhimento, de reflexão e também de encontro familiar. Já para muitos não católicos, a quadra pascal assume sobretudo um carácter cultural e social  uma oportunidade de pausa, convívio e partilha, onde tradições como os almoços em família, os doces típicos ou até os ovos de chocolate ganham protagonismo.
Em Portugal, país de forte herança cristã, a Páscoa é vivida de forma intensa, mas não uniforme. Há um traço comum  o sentido de comunidade e tradição , mas as expressões variam de região para região, reflectindo a riqueza cultural do território.
No Norte e Centro, é comum o “Compasso Pascal”, com a visita do pároco às casas, levando a cruz para ser beijada, num ritual profundamente enraizado. Já noutras zonas, as celebrações assumem formas distintas, mais discretas ou até mais festivas, dependendo da identidade local.
O caso do Alentejo levanta uma curiosidade particular: em algumas localidades como Arronches, a celebração principal não ocorre no domingo de Páscoa, mas sim na segunda-feira. Esta diferença não é fruto de acaso, mas sim de tradições antigas, muitas vezes ligadas à organização das comunidades rurais, ao ritmo do trabalho agrícola ou à necessidade de adaptar os rituais à realidade local. A segunda-feira tornava-se, assim, o dia privilegiado para reunir a comunidade, quando havia maior disponibilidade para celebrar.
Este desfasamento mostra algo importante: a tradição não é rígida, é viva. Molda-se às pessoas, ao território e ao tempo. E talvez seja essa a maior riqueza da Páscoa em Portugal  não apenas o que se celebra, mas como se celebra.
Num mundo cada vez mais uniforme, estas diferenças regionais lembram-nos que a identidade cultural se constrói nos detalhes. Seja ao domingo ou à segunda-feira, com procissão ou à mesa, o essencial permanece: a celebração da vida, da renovação e do encontro entre as pessoas.
E isso, independentemente da fé, é algo que continua a fazer sentido celebrar.

Portugal como se fosse um hipermercado

 

 

Por: Luís Mergulhão

 


Vivem-se tempos muito incaracterísticos, com uma turbulência geoestratégica como não se via há já muitas décadas, resultante sobretudo do ataque inesperado (ou não…) e coordenado entre os Estados Unidos e Israel ao Irão. O Médio Oriente sempre foi um território extraordinariamente complexo sob quaisquer pontos de vista com base nos quais se queira analisar: a disputa territorial entre Israel (desde que Bem Gurion fundou o Estado judaico) e os seus vizinhos árabes e, sobretudo, o seu vizinho persa (o Irão); a disputa entre sunitas (a maior parte do Islão) e xiitas (concentrados sobretudo no Irão e no Paquistão, onde cerca de 30% da população é xiita e, portanto, onde os sunitas também são a maioria); as questões económicas, pois grande parte do petróleo e do gás natural consumidos pela economia mundial tem origem naquelas paragens.
Ou seja, o Médio Oriente é um barril de pólvora sempre à espera que alguém acenda o rastilho para que o mundo entre numa espécie de histeria colectiva, cuja principal consequência é a desregulação económica e financeira global. Na realidade, como se tem visto, o aumento brutal do preço do petróleo (confesso que não tão brutal como eu pensei, até pelo exemplo do momento da invasão da Ucrânia) tem-se reflectido no aumento do preço dos combustíveis e, portanto, a nossa carteira tem sido altamente penalizada. Aliás, esta guerra tem demonstrado à saciedade, como se fosse necessário, que vivemos mesmo numa aldeia global, em que tudo se encontra interligado, seja para o bem seja para o mal.
Desta vez não quero escrever sobre o que se passa em Portugal relativamente à forma como é estabelecido o preço dos combustíveis cá no burgo, pois continuo a defender que existe uma cartelização evidente por parte dos players de mercado que só os nossos governantes não querem ver. Para mim é óbvio que estamos a ser roubados (sublinho sem medo das palavras: roubados) pela indústria petrolífera, mas, como disse, não é sobre essa circunstância que escrevo. 
O que me tem deixado estupefacto é a quase inércia do governo de Luís Montenegro na tentativa de mitigar as consequências das guerras nos produtos petrolíferos. Se olharmos para trás, não nos devemos esquecer que o preço do petróleo teve um aumento bastante significativo imediatamente a seguir à invasão da Ucrânia, aumento esse que foi até mais violento que o actual, com uma nuance importante: a economia tem o dom de absorver estes impactos, e alguns meses passados sobre a invasão russa, o preço da matéria-prima recuperou para valores aceitáveis para um robusto crescimento da economia mundial.
Ora, agora dão-se circunstâncias diferentes, pois aquela zona do globo é, no seu conjunto, muito mais importante do que a Rússia na produção de petróleo e gás natural, pelo que o impacto na economia global vai ser muito mais prolongado pois, como sabemos, pelo Estreito de Ormuz passa cerca de 20% do petróleo mundial. Significa isso que as consequências são muito mais devastadoras, havendo um outro aspecto que poucas vezes é referido, mas que importa não esquecer: é que uma vez a guerra terminada, recuperar as infra-estruturas destruídas vai levar muito tempo, pelo que o impacto desta guerra vai ser muito mais duradouro até que tudo esteja reconstruído e operacional.
Ou seja, os constrangimentos ao fornecimento das matérias-primas não se esgota com o fim do conflito, prolongando-se os seus efeitos por muitos anos, com o crescimento económico a ficar comprometido na próxima década. E essa circunstância é preocupante para o comum do cidadão, na medida em que vão sentir-se os efeitos do menor crescimento no seu dia-a-dia, desde logo com o aumento do preço dos combustíveis e o efeito dominó subsequente.
E o que acontece em Portugal? O que tem feito o governo de Luís Montenegro para mitigar o aumento do custo de vida que já todos sentimos na nossa carteira? Aqueles que vivem perto da fronteira com Espanha sempre têm a possibilidade de ir abastecer ao país vizinho (com as empresas a história é diferente), uma vez que a diferença de preço é substancial e compensa a deslocação. Se essa circunstância era verdadeira  antes da guerra, tornou-se muito mais acentuada depois da intervenção do governo espanhol que visou auxiliar as empresas e as famílias do Reino face ao aumento repentino dos preços. E atenção que o governo espanhol não é exemplo para ninguém, pois está enredado no submundo da corrupção e refém dos independentistas catalães e dos criminosos da ETA, grupo terrorista que devastou centenas de vidas em bárbaros atentados terroristas e que hoje o governo de Sanchéz tem como aliados apenas para manter o Poder à custa da honra do Reino de Espanha. Mas isso são contas de outro rosário, e o que importa aqui é referir que Sanchéz viu na reacção à crise uma oportunidade de lavar a sua imagem junto da opinião pública e, nesse sentido, teve uma forte intervenção na economia na tentativa de mitigar as consequências do aumento dos combustíveis. A verdade é que a sua acção foi bem estruturada e baseou-se num plano global que, na realidade, tem estado a resultar e é visto como exemplo de rapidez na tomada de decisões naquela que é a 15.ª maior economia do mundo.
Perguntava eu o que tem acontecido em Portugal. Bem, assim, à primeira vista, pouco ou nada de relevante se tem percepcionado no que diz respeito à intervenção do governo e, mais importante ainda, pouco ou nada os portugueses têm sentido de alívio nas dificuldades do seu dia-a-dia, que vão aumentando à medida que os combustíveis vão escalando o seu preço. De facto, aquilo que o governo de Luís Montenegro tem vindo a fazer pouco tem de estratégico, ficando no ar a sensação de que é um governo que chega sempre atrasado, que não tem um plano e que reage sem apresentar ideias inovadoras ao invés de ter uma posição pro-activa e que se antecipa aos acontecimentos. Sim, foi isso que o governo aqui do lado fez: não anda a apresentar medidas avulsas quase semanalmente, pois o plano que desenhou inicialmente antecipa os problemas e defende os espanhóis.
Por cá, o que se ouve ao primeiro-ministro é que o governo está atento à evolução dos acontecimentos (pois isso todos estamos, não é?) e que irá intervir se se justificar (o que é uma verdadeira hipocrisia pois já se justifica há muito) e que o governo já está a ajudar as empresas e as famílias, pois o desconto no ISP já atinge 0,10 euros por litro de combustível. É este ponto que me parece absolutamente caricato, pois qualquer hipermercado oferece descontos nos combustíveis desde há muitos anos de, no mínimo, 0,10 euros por litro, o que me leva a concluir que o sr. Primeiro-ministro deve pensar que se gere Portugal como se de um mero hipermercado se tratasse no que diz respeito às promoções.
De resto, na semana que terminou a 17 de Abril, o Brent (que é a referência para Portugal) baixou de uma cotização acima dos 100 dólares por barril (entre os 103 e os 104) no dia 13 para menos de 90 no dia 17 (entre os 88,8 e os 89,85 dólares por barril), o que representa uma queda superior a 10%. Isso implicou uma queda no preço dos combustíveis, sobretudo do gasóleo. E o que fez o governo do Luís neste cenário? Pasme-se, a primeira decisão foi baixar a redução do ISP. Ora, esta atitude mercantilista e miserabilista prova que o Luís gere Portugal como se fosse um hiper-mercado, em que oferece descontos ao sabor das necessidades orçamentais e não tendo em conta as reais necessidades e dificuldades que assolam os portugueses. 
Assim não, caro Luís, assim dificilmente te deixaremos trabalhar como pediste, pois os portugueses estão cansados de passar mal.

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