Na hora da partida - O legado de Marcelo
- Redacção - Notícias de Arronches

- há 3 horas
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Durante dez anos, a Presidência da República portuguesa teve um rosto, um estilo e quase uma marca pessoal: Marcelo. Não apenas Marcelo Rebelo de Sousa, professor, comentador e político, mas simplesmente “Marcelo”, o Presidente que transformou a proximidade com os cidadãos numa imagem de marca e que fez da presença constante no espaço público uma forma de exercer o cargo.

Ao longo de uma década em Belém, o Presidente construiu uma figura política singular na democracia portuguesa. Ficou conhecido como o “Presidente dos afectos”, um líder que privilegiou o contacto directo com as pessoas, multiplicou visitas pelo país e marcou presença em momentos de crise, desde incêndios devastadores a tempestades e à pandemia de covid-19.
Antes de chegar à Presidência, Marcelo Rebelo de Sousa já era uma figura familiar para muitos portugueses. Durante anos foi o professor que comentava a actualidade política ao domingo à noite na televisão. Ao assumir o cargo em 2016, manteve esse registo comunicativo, mas transformou-o num estilo presidencial próprio: informal, disponível e omnipresente.
Sem a distância institucional que marcou alguns antecessores, Marcelo cultivou a imagem de um Presidente próximo, capaz de conversar com cidadãos nas ruas, entrar em cafés ou tirar fotografias espontâneas — as famosas “celfies”.
Este estilo contrastou com o do seu antecessor, Aníbal Cavaco Silva, frequentemente associado a uma postura mais austera e distante. Com Marcelo, o Palácio de Belém aproximou-se simbolicamente do quotidiano dos portugueses.
A intensidade marcou também a dimensão diplomática do mandato. Marcelo tornou-se o Presidente português com mais deslocações oficiais ao estrangeiro, realizando cerca de 175 viagens e visitando aproximadamente 60 países.
Entre os destinos mais frequentes estiveram Espanha, França, Brasil, Angola, Cabo Verde, Itália e os Estados Unidos, numa agenda que procurou reforçar a presença de Portugal no espaço lusófono e nas relações transatlânticas.
Internamente, destacou-se igualmente pelo uso recorrente de um dos poderes mais fortes da Presidência: a dissolução do Parlamento, num contexto político marcado por momentos de instabilidade governativa.
O primeiro mandato ficou marcado por uma relação política relativamente estável com o então primeiro-ministro António Costa. Marcelo apoiou a solução governativa à esquerda que surgiu em 2015, num período de cooperação institucional que marcou os primeiros anos do seu mandato.
No segundo mandato, porém, a relação tornou-se mais tensa. Surgiram divergências públicas sobre a continuidade de ministros, a condução de algumas políticas e decisões relacionadas com a gestão da pandemia de covid-19. O Presidente passou a assumir um papel mais crítico e interventivo no debate político.
Se a comunicação foi uma das suas maiores forças, também acabou por se tornar uma fonte de críticas. Marcelo manteve ao longo dos anos uma presença mediática intensa, comentando frequentemente temas políticos, sociais e institucionais.
Para os apoiantes, essa postura representava transparência e proximidade. Para os críticos, porém, a intervenção permanente banalizava o peso institucional da palavra presidencial. O excesso de exposição acabou por gerar algum desgaste público e episódios de comunicação controversa.
Outra marca da presidência foi a atenção dada a causas sociais, como o combate à pobreza ou a situação das pessoas sem-abrigo. Marcelo assumiu publicamente o objectivo de reduzir drasticamente este fenómeno antes do final do mandato.
Contudo, os resultados ficaram aquém das expectativas. O número de pessoas em situação de sem-abrigo acabou por aumentar ao longo da década, reflectindo os limites da intervenção presidencial em problemas estruturais.
Situações semelhantes ocorreram noutras áreas, como a prevenção de incêndios ou as dificuldades do sistema de saúde, temas sobre os quais o Presidente fez alertas públicos, mas onde as soluções concretas permaneceram fora do seu alcance directo.
Entre os momentos mais delicados do mandato destacou-se o chamado caso das gémeas brasileiras, revelado em 2023. A investigação indicou que Nuno Rebelo de Sousa, filho do Presidente, teria pedido ao pai que intercedesse para facilitar o tratamento em Portugal de duas crianças diagnosticadas com Atrofia Muscular Espinhal.
As meninas obtiveram nacionalidade portuguesa e foram tratadas no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, com um dos medicamentos mais caros do mundo. O caso levou à criação de uma comissão parlamentar de inquérito para apurar responsabilidades.
Inicialmente, Marcelo afirmou desconhecer a situação. Mais tarde admitiu ter recebido um e-mail do filho e garantiu ter encaminhado a informação para a Procuradoria-Geral da República. O Presidente afirmou ainda ter cortado relações com o filho. Apesar da grande atenção mediática, o episódio acabou por ter consequências políticas limitadas.
Mesmo na recta final do mandato, Marcelo continuou a desafiar algumas tradições do cargo. Antes de deixar o Palácio de Belém, convidou o artista urbano Vhils para realizar o seu retrato oficial.
Foi a primeira vez que um artista associado à arte urbana participou na criação de um retrato presidencial, numa decisão que o próprio descreveu como uma “ideia louca”, apresentada como símbolo da vitalidade da democracia portuguesa.
Ao despedir-se da Presidência, Marcelo Rebelo de Sousa anunciou que pretende afastar-se da vida política activa. Abdicará da subvenção de ex-Presidente da República, optando apenas pela reforma como professor universitário jubilado e pelos rendimentos de actividade profissional.
Não pretende regressar ao comentário político — actividade que o tornou uma figura pública — e descreveu o período que se segue como o seu “deserto eterno”.
Ainda assim, planeia retomar a filiação no Partido Social Democrata, continuar o trabalho voluntário em cuidados paliativos e dar aulas como professor convidado no ensino básico e secundário, sobretudo sobre História de Portugal, Constituição e literatura portuguesa.
O plano inclui ainda um percurso por escolas do interior do país antes de chegar às grandes cidades, num projecto educativo previsto para durar dois anos.
Entre elogios e críticas, Marcelo Rebelo de Sousa construiu uma presidência singular na história democrática portuguesa. Humanizou a figura do Chefe de Estado, aproximou-se das pessoas e ocupou o espaço público de forma inédita.
Mas essa mesma proximidade trouxe também desgaste, polémicas e a sensação de que, por vezes, a palavra presidencial foi usada em excesso.
No final de uma década em Belém, a imagem que permanece é a de um Presidente permanentemente em movimento — nas ruas, nos aeroportos, nas televisões e nas memórias colectivas de um país que, durante dez anos, aprendeu a chamar o seu Presidente simplesmente de Marcelo.
Opinião: Fernando N. Marques|Fontes: Wikipedia-Site PR






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