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O futebol une gerações

Há memórias que o tempo não consegue apagar. Permanecem guardadas num recanto da nossa lembrança, prontas a regressar sempre que alguma coisa desperta a saudade de outros tempos. E, para muitos de nós, basta uma bola para fazer voltar à memória a infância.


Sobre o relvado do Estádio Municipal 'Francisco Palmeiro' os participantes do 'Encontro da Amizade'

Uma bola de verdade nem sempre estava ao alcance. Bastava uma feita de folhas de jornal, das mais simples, ou umas meias já gastas pelo tempo, enroladas umas nas outras. Era quanto bastava para juntar os miúdos da rua, do bairro ou da aldeia. As pedras da calçada faziam de balizas e o terreno, fosse ele uma rua, um largo ou um pedaço de terra batida, transformava-se no mais importante dos estádios.



Jogava-se até o sol começar a esconder-se no horizonte. O jogo só terminava quando já quase não se via a bola ou quando, ao longe, se ouvia a voz das mães a chamar pelos filhos. E lá íamos nós, contrariados, deixando para trás a bola, os amigos e aquela partida que, no dia seguinte, haveria de continuar. Éramos felizes com tão pouco.

Na segurança das ruas de então, sonhávamos ser os grandes craques da bola. Admirávamos Travassos, Eusébio, Coluna e tantos outros nomes que povoavam a nossa imaginação. Cada remate era uma oportunidade de imitar um ídolo, cada golo uma pequena vitória que se festejava como se estivéssemos num grande estádio.

Hoje, muitas dessas imagens pertencem ao passado, mas continuam vivas na memória de quem as viveu. Os tempos mudaram, as brincadeiras mudaram, as ruas deixaram de ter a mesma vida. Mas há coisas que permanecem: a amizade, a vontade de estar com os outros e a capacidade que o desporto tem de aproximar pessoas.

Foi precisamente esse espírito que esteve na origem de um encontro no passado sábado que juntou, cerca de 50 participantes, dos 9 aos 71 anos. A ideia partiu de Pedro Arguelles e contou com a disponibilidade da Câmara Municipal de Arronches e do Atlético Clube de Arronches, que emprestou as bolas e ajudou também a criar o espaço de convívio.

Pais e filhos, amigos de longa data e outros que vieram de longe reencontraram-se sobre o tapete verde. Uns com a agilidade de outros tempos, outros já com as pernas a lembrarem que os anos passam, mas todos com a mesma vontade: dar uns toques na bola, marcar um golo, rir, recordar e, sobretudo, estar juntos.

Ali, durante algumas horas, as diferenças de idade deixaram de contar. O futebol foi apenas o pretexto. O verdadeiro jogo era outro: o jogo da amizade, da memória e da confraternização.

Houve abraços de reencontro, histórias antigas recuperadas, brincadeiras e, naturalmente, algumas jogadas de maior ou menor habilidade. Mas ninguém ficou preocupado com resultados. Naquele dia, não havia vencedores nem vencidos. Havia pessoas que se encontraram, amizades que se reforçaram e outras que talvez tenham começado ali.

E quando a tarde deu lugar à noite, a bola deu lugar à mesa. No Hotel Rural Stº António de Arronches, o jantar prolongou o convívio. À mesa, continuaram as conversas, as recordações e as gargalhadas. A simpatia e o serviço mereceram elogios, sem cartões amarelos nem vermelhos, apenas uma boa disposição que se prolongou pela noite.

Valeu a pena a ideia, o encontro, a bola, os reencontros e até o esforço daqueles que viajaram de longe para estar presentes. Ficou, sobretudo, a memória de um dia em que várias gerações perceberam que há coisas que não envelhecem.

E talvez seja essa uma das mais bonitas lições que o futebol nos pode deixar: podem passar os anos, podem mudar os tempos, mas as amizades que se constroem à volta de uma bola permanecem para sempre na memória.

Redacção|Fotos: Pedro Arguelles (drone)                                      

 

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