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O NATAL NA ERA BLACK FRIDAY 

 

Fernando Neves Marques/Director 

 

 

Ao percorrer o 'Mercadinho' na nossa vila de Arronches, uma iniciativa louvável para promover o comércio local, fui levado a pensar, num todo nacional - e como os tempos são outros.
Com a chegada de Dezembro, as cidades portuguesas revestem-se de luzes, mercados de Natal e a habitual expectativa de reencontro familiar. Contudo, por detrás deste ambiente festivo, cresce também uma preocupação que já se tornou recorrente: os gastos supérfluos (272 euros por familia em média em 2024*), o aumento do recurso ao crédito e o consequente endividamento das famílias, realidade que se intensifica ano após ano. A celebração, outrora marcada sobretudo pela partilha, transformou-se num poderoso motor de consumo  impulsionado, em grande parte, pela importação massiva da chamada Black Friday.
O comércio português, especialmente o pequeno e médio, vê no período natalício uma oportunidade crucial para equilibrar contas e ganhar fôlego num ano marcado pela inflação (nos produtos de primeira necessidade) e pelos custos operacionais crescentes. As lojas insistem em campanhas cada vez mais antecipadas, procurando captar o consumidor antes da concorrência e das plataformas digitais internacionais (Temu/Amazon), que têm vindo a ganhar terreno de forma acelerada.
Mas essa engrenagem económica tem impacto directo nas famílias. A pressão para presentear, a avalanche de campanhas publicitárias e o discurso de “promoções imperdíveis” criam um ambiente em que muitos portugueses acabam por comprar mais do que necessitam  muitas vezes recorrendo a crédito, cartões ou pagamentos fraccionados. É um ciclo que pesa particularmente numa altura em que o orçamento doméstico já se encontra fragilizado pelo aumento dos juros, da habitação, do custo de vida e dos gastos em livros e cadernos na edução dos filhos.
A Black Friday, originalmente uma tradição norte-americana após o Dia de Acção de Graças, instalou-se em Portugal com uma força surpreendente. Apesar de frequentemente criticada por descontos ilusórios ou pela prática do “sobe e desce” de preços, consolidou-se como um dos momentos mais importantes do calendário comercial. 
É evidente que os comerciantes também enfrentam desafios significativos. Num contexto económico exigente, muitos dependem das vendas de fim de ano para manter empregos, pagar despesas e assegurar a continuidade dos negócios. É fundamental para que a época seja vivida com serenidade e sem comprometer o futuro financeiro das famílias portuguesas.
Cabe ao consumidor ponderar antes de abrir a carteira ao comércio, agir com coerência e responsabilidade. Só assim será possível devolver ao Natal o seu significado mais autêntico, uma celebração de proximidade familiar e partilha, em vez de uma corrida desenfreada por presentes e promoções.
O Notícias de Arronches deseja aos seus leitores, anunciantes e colaboradores, um Feliz Natal e melhor 2026... e vamos todos reflectir sem pressões sobre esta nova era natalícia.                                          
                                                          * Fonte:Dinheiro Vivo

 

EGAS MONIZ

 

 

Por: Luís Mergulhão

 

Há pouco mais de 4 anos surgiu uma polémica acerca do que foi o papel dos países colonizadores no que diz respeito às suas relações históricas e respectivas possessões ultramarinas, com os primeiros a serem acusados de racistas por terem promovido o comércio de escravos e também por terem canalizado recursos para seu próprio benefício, sonegando-os aos seus supostos legítimos proprietários. Nesse contexto político, muitos daqueles que estiveram na origem desses “saques”, no entendimento dos que se revoltaram contra a História, viram até monumentos erguidos em sua memória vilipendiados e destruídos. Que quem não respeita a sua História não pode conduzir as sociedades rumo ao futuro parece-me óbvio. E este é um caso paradigmático.
O passado dos países como Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra ou França foi maculado com base em princípios que, do meu ponto de vista, não fazem qualquer sentido na medida em que se está a avaliar atitudes, comportamentos e princípios ético-morais de há vários séculos à luz do que é actualmente o entendimento da vida e dos seus princípios morais, éticos, políticos e culturais. Normalmente, a forma de pensar é, hoje em dia, muito diferente da que era há 3 ou 4 séculos e convém referir, para quem não saiba, que foi Portugal o primeiro país no Mundo a abolir a pena de morte, o que demonstra profundas preocupações humanistas dos líderes portugueses e da nossa sociedade.
Dito isto, foi bastante polémico o discurso do actual Presidente de Angola nas comemorações do 50º aniversário da independência daquela antiga colónia portuguesa, criticando duramente Portugal enquanto país colonizador, acusando-nos de quase todo o mal que ensombra a sociedade angolana, como que eximindo as elites do seu país do estado lastimoso em que se encontra aquela ex-colónia. É certo que se pode questionar a forma como foi concedida a independência, mas Portugal não pode envergonhar-se daquilo que lá deixou e cabe aos líderes portugueses demonstrarem orgulho no que se fez nesses territórios durante cerca de 4 séculos. Não, não foi Portugal que originou o descalabro das suas ex-colónias, mormente de Angola, um país riquíssimo, com recursos como quase nenhum outro em África, com potencialidades únicas e recursos quase inesgotáveis e, ao invés de se ter erigido como um país próspero vê grande parte da sua população viver abaixo do limiar mínimo de pobreza. Portanto, seria mais justo que o Presidente angolano olhasse para dentro, para as elites que têm destruído o país, em vez de querer sacudir a água do seu capote como se fosse vítima em vez do vilão que, de facto, é.
Fica também muito mal a João Lourenço acusar Portugal do crime do comércio de escravos, descontextualizando, pois a forma de vida de há 3 ou 4 séculos não pode ser avaliada à luz do pensamento actual e não perceber isso é não perceber a História; significa que não se está a ser justo com as dinâmicas das sociedades, o que demonstra que não se compreende o alcance da própria a evolução da Humanidade.
Também há dias, o Presidente deposto da Guiné-Bissau veio acusar Portugal de um rol de incoerências que nem vale a pena prestar-lhe grande atenção, por tão graves disparates. Mais uma vez Portugal é acusado enquanto potência colonizadora com base em princípios ético-morais do século XXI para avaliar formas de viver de séculos passados, o que demonstra a incoerência daqueles líderes. Mas também a Guiné-Bissau não é exemplo para ninguém.
Portugal e os portugueses devem sentir-se orgulhosos do seu passado em todas as latitudes onde exerceu como colonizador? Claro que sim! Não se pode avaliar o que se passou há 3 séculos tendo por base princípios actuais, mas sim com base na forma de pensamento contemporânea dos actos praticados. Aquilo que se ensinava nas aulas de História quando eu estudava era que Portugal tinha contribuído para o enriquecimento da vida das populações das suas ex-colónias através da promoção da miscigenação de populações, oriundas de diversas latitudes. Foi crime? Na altura não. Hoje em dia seria inexplicável, seria crime. Seria hediondo.
Então, e porquê o título deste texto? Ora, Egas Moniz recebeu o Prémio Nobel da Medicina (o nome correcto é de Fisiologia e Medicina) em 1949 pela descoberta de uma técnica cirúrgica para tratamento de doentes com distúrbios psiquiátricos muito graves, chamada Leucotomia pré-frontal ou Lobotomia, em 1935. Neste caso, Portugal sente-se muito orgulhoso pelo trabalho de excelência de um médico, professor e investigador que contribuiu para o avanço da medicina de uma forma tão transcendental e reconhecida. Ainda hoje esse reconhecimento está muito enraizado e não é invulgar haver toponímia, como em Arronches, com referências ao professor Egas Moniz.
Acontece, porém, que a técnica da Lobotomia caiu em desgraça há muito e não é já praticada, sendo quase criminosa à luz dos conhecimentos científicos e da ética médica actuais. O trabalho de Egas Moniz, tão enaltecido na primeira metade do século passado, não resistiu aos avanços científicos e à própria ética médica, sendo hoje visto quase como “arqueologia médica” e não é utilizado pelos terríveis efeitos secundários irreversíveis que provoca nos pacientes submetidos a essa técnica cirúrgica.
Aqui chegado, não é por ter caído em desgraça que Portugal não celebra a vida e a obra de Egas Moniz. Não é por ter caído em desgraça que Portugal vai enxovalhar o nome do professor que deu o primeiro Prémio Nobel. O seu trabalho foi “vítima” da evolução científica, ética e moral e não é por isso que, por exemplo, a sua estátua da Faculdade de Medicina vai ser eliminada ou o seu nome vai desaparecer da toponímia nacional. A evolução da Ciência tornou obsoleta a sua técnica, que na altura era inovadora, sendo que o seu legado continua bem vivo.
Na mesma perspectiva, aquilo que Portugal fez nos séculos passados nas suas ex-colónias não pode ser interpretado à luz dos princípios da sociedade actual, pois a evolução do pensamento e do conhecimento originou sociedades mais justas e onde as antigas formas de vida são impensáveis hoje em dia. Tal como o trabalho do Professor Egas Moniz, daí esta analogia para explicar a incoerência de certos discursos políticos, inclusivamente com origem em partidos políticos portugueses, partidos esse que têm vindo a perder muita da sua influência na sociedade portuguesa.

P.S. Aproveito para desejar Festas Felizes a toda a equipa do NA e aos nossos estimados leitores e respectivas famílias.

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