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CRÓNICA - À conversa com o pastor…

O dia era de autêntica Primavera, muito embora o calendário nos lembrasse que estamos em pleno Inverno.

Era dia de distribuição do Notícias de Arronches na freguesia rural dos Mosteiros, no concelho de Arronches. Era necessário um espaço de tempo até poder desfrutar do almoço no restaurante com a vista privilegiada da ribeira que, de mansinho, ainda corria em direcção à sede do concelho para depois se juntar a outras águas que enchem felizmente a Barragem do Caia.

Resolvemos meter-nos pela Estrada do Benzilhão, ali a serpentear ao lado da estrada M517. A paisagem do nosso lado direito leva-nos o olhar ao Pego do Inferno. Visto lá de cima é ter uma outra visão de quanto bonito é este Alentejo. Mesmo com a desertificação, pode-se observar muito do casario por entre a vegetação que foi recuperado, entre os quais por estrangeiros que escolheram este concelho de Arronches para gozar deste sol, da tranquilidade e, claro está, da paisagem que quase nos sufoca com a sua beleza.


O sussurrar do motor do carro quase que não se ouvia e permitia-nos escutar o voar e chilrear dos pássaros. No meio de todo este silêncio, quase ‘doloroso’, o ladrar de um animal. Passou-nos à frente, vindo da nossa direita onde pastavam algumas ovelhas com os seus cordeiros com pouco tempo ainda de vida. O silêncio foi quebrado não só pelo ladrar do animal como de uma voz que se ergueu gritando: - Anda cá Violeta! Parámos porque à beira da estrada estava o pastor com o seu cajado e um aparelho na mão. Entabulou-se o diálogo. A ‘Violeta’ como se chama a cadela, tinha sido atropelada e, a partir de então ficou com medo dos carros, dizia-nos o pastor. Já idoso com a pele curtida de muitos sóis, tinha aderido às novas tecnologias, e mostrou-nos o aparelho que tinha na mão explicando: - Com este aparelho, quando a chamo e ela não vem, porque ainda é nova, carrego neste botão (e apontou para o botão) e ela recebe um choque na coleira que tem ao pescoço. Agora temos estas coisas porque antigamente, esta raça (Border Collie|Foto ©Kate) que é muito inteligente, levava algum tempo a treinar à voz.

Possivelmente o pastor, passa muito tempo por estas paragens e apenas tem por companhia a ‘Violeta’ com que ‘fala’. Então quis prolongar a conversa. Disse-nos ter nascido no Caia, e agora é viúvo há dois anos mas, tem a sorte de viver com o filho que diz cozinhar muito bem. Não é que ele não se desenrascasse, porque logo de criança, a mãe ia para o trabalho e ele ficava a tomar conta da panela sobre as brasas do lume do chão, afirmou com convicção.

Pareceu-nos um Homem de bem com a vida. Com o pouco… tinha muito, porque os tempos agora são diferentes. Tem as suas ovelhas, a sua motorizada com atrelado para levar a ‘Violeta’ e a pequena reforma que, esticada dá para viver.

Despedimo-nos do pastor e fizemos o percurso que nos levou até Vale de Cavalos para voltar aos Mosteiros. Ali degustamos o almoço que já nos esperava com a mesa reservada. A conversa prolongou-se entre mim e a minha mulher, indubitavelmente a falar do pastor e da sua ‘Violeta’…

Fernando N. Marques

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